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wSexta-feira, Fevereiro 22, 2008


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A minha visão dos fatos

    Os fatos recentes me fizeram pensar muito no mundo que me cerca e em como, apesar de tudo, me parece impossível querer me desfazer dele. Mas cada par de olhos nesta terra vê um mundo diferente. E nesse contexto, ser educador parece uma coisa mística e terrível: Como canalizar a energia de tantas mentes? Como pretender formar esses olhares? Como subestimar o seu poder? E qual é a real importância de alguém além de você mesmo ser levado por caminhos do SEU olhar?

    Partilhar visões: viver não parece ser mais do que isso. Um exercício interessante de caminhos que se cruzam. Alguns encontros nos parecem mágicos justamente pelo mistério de encontrarmos idéias complementares às nossas. São momentos raros de harmonia incrivelmente traduzidos por palavras. Palavras que são tão difíceis de se dominar, que quase sempre parecem limitadas e insuficientes para exprimir nossos pensamentos.

    Talvez esteja aí o caminho e o mérito do educador: ser uma ponte entre palavras para que aqueles que o rodeiam encontrem similaridades e diferenças pelo mundo; para que eles se enquadrem ou se revoltem com o que bem entenderem; para que não se sintam restritos ou exilados. Acho que não existe nada melhor – ou mais assustador – do que abrir uma nova porta, enxergar um novo horizonte... Mas, por outro lado, isso é apenas a minha visão.



posted by Paula Casellato Carnasciali at 4:54 PM



wQuarta-feira, Outubro 10, 2007


The encounter

        I've just woke up from a most beautiful dream. It was so rare that I had to write it down. Just some bits and pieces are here: while my body awakened, the ethereal waft faded away.

        It was a unforeseen encounter.

        In a kind of airport full of people I found him. I was surrounded by new and old friends, so did he. Both groups recognized each other and we stopped to talk. The words spoken were superfluous, but something -- some universe energy -- enclosed us. He was seated now, wearing a red T-shirt, a witty expression on his face. Not necessarily the sarcasm he displays nowadays nor the malice from the old days. Eyes tired of looking for something that was never there. As I looked at him, my heart found new vigor, pumping more blood to my ears than to any other part of my body.

        We said our goodbyes, the groups parted ways. The same predictable sentences were said around me and - I'm sure about that - around him too. But our eyes, hearts and minds were still conected.

        At some distance now, through a glass door, he looked at me, moved his lips and said: "Call me". I felt a strange pressure on my chest. I went away with everyone and sat on a bench, some steps away. Voices around me sounded muffled. All I could feel were those words whispered on the back of my neck, putting my hairs on end: "Call me".

        Time seemed to stop. I saw his face appearing among the crowd, his red T-shirt. It had started to rain, but it felt like the drizzle could not reach us. He stopped in front of me and a aura of raindrops framed his body. The atmosphere around us was negative and discredited. Only one look. Magnetism. I had to stand up and go to him. First the hands, warm. Then, a dance, almost a waltz. We started to whirl slowly, I felt light as a feather, I was a ballerina. Things between us had never been so delicate... until now.



        He fastened his arms around my waist, I entangled my hands on his hair. I leaned my body backwards and he spun me - the rain still did not reach us. The world was just the two of us, smiling with the knowledge that we were exactly where we're supposed to be. The time had finally come.

        The spinning stopped and our eyes met. He held me tight and we kissed.


posted by Paula Casellato Carnasciali at 1:31 AM



wQuinta-feira, Agosto 16, 2007


Aprendo porque amo
Rubem Alves
para a Folha de S.Paulo

      Recordo a Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo; quero é fome". Se estou com fome e gosto de queijo, eu como queijo... Mas e se eu não gostar de queijo? Procuro outra coisa de que goste: banana, pão com manteiga, chocolate... Mas as coisas mudam de figura se minha namorada for mineira, gostar de queijo e for da opinião que gostar de queijo é uma questão de caráter. Aí, por amor à minha namorada, eu trato de aprender a gostar de queijo.

      Lembro-me do filme "Assédio", de Bernardo Bertolucci. A história se passa numa cidade do norte da Itália ou da Suíça. Um pianista vivia sozinho numa casa imensa que havia recebido como herança. Ele não conseguia cuidar da casa sozinho nem tinha dinheiro para pagar uma faxineira. Aí ele propôs uma troca: ofereceu moradia para quem se dispusesse a fazer os serviços de limpeza.

      Apresentou-se uma jovem negra, recém-vinda da África, estudante de medicina. Linda! A jovem fazia medicina ocidental com a cabeça, mas o seu coração estava na música da sua terra, os atabaques, o ritmo, a dança. Enquanto varria e limpava, sofria ouvindo o pianista tocando uma música horrível: Bach, Brahms, Debussy... Aconteceu que o pianista se apaixonou por ela. Mas ela não quis saber de namoro. Achou que se tratava de assédio sexual e despachou o pianista falando sobre o horror da música que ele tocava.

      O pobre pianista, humilhado, recolheu-se à sua desilusão, mas uma grande transformação aconteceu: ele começou a frequentar os lugares onde se tocava música africana. Até que aquela música diferente entrou no seu corpo e deslizou para os seus dedos. De repente, a jovem de vassoura na mão começou a ouvir uma música diferente, música que mexia com o seu corpo e suas memórias... E foi assim que se iniciou uma estória de amor atravessado: ele, por causa do seu amor pela jovem, aprendendo a amar uma música de que nunca gostara, e a jovem, por causa do seu amor pela música africana, aprendendo a amar o pianista que não amara. Sabedoria da psicanálise: frequentemente, a gente aprende a gostar de queijo por meio do amor pela namorada que gosta de queijo...

      Isso me remete a uma inesquecível experiência infantil. Eu estava no primeiro ano do grupo. A professora era a dona Clotilde. Ela fazia o seguinte: sentava-se numa cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos a viam —acho que fazia de propósito, por maldade—, desabotoava a blusa até o estômago, enfiava a mão dentro dela e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo atrevido... E nós, meninos, de boca aberta... Mas isso durava não mais que cinco segundos, porque ela logo pegava o nenezinho e o punha para mamar. E lá ficávamos nós, sentindo coisas estranhas que não entendíamos: o corpo sabe coisas que a cabeça não sabe.

      Terminada a aula, os meninos faziam fila junto à dona Clotilde, pedindo para carregar sua pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Como diz o velho ditado, "quem não tem seio carrega pasta"... Mas tem mais: o pai da dona Clotilde era dono de um botequim onde se vendia um doce chamado "mata-fome", de que nunca gostei. Mas eu comprava um mata-fome e ia para casa comendo o mata-fome bem devagarzinho... Poeticamente, trata-se de uma metonímia: o "mata-fome" era o seio da dona Clotilde...

      Ridendo dicere severum: rindo, dizer as coisas sérias... Pois rindo estou dizendo que frequentemente se aprende uma coisa de que não se gosta por se gostar da pessoa que a ensina. E isso porque —lição da psicanálise e da poesia— o amor faz a magia de ligar coisas separadas, até mesmo contraditórias. Pois a gente não guarda e agrada uma coisa que pertenceu à pessoa amada? Mas a "coisa" não é a pessoa amada! "É sim!", dizem poesia, psicanálise e magia: a "coisa" ficou contagiada com a aura da pessoa amada.

Meu mestre, ligando o contraditório


      Minha avó guardava uns bichinhos que haviam pertencido a um filho que morrera. Guardo um peso de papel, de vidro, que pertenceu ao meu pai. E os apaixonados guardam uma peça de roupa da pessoa amada e a colocam sobre o travesseiro, ao dormir... Mesmo depois de ela ter morrido. É como se, por meio daquela "coisa" que não é a pessoa amada, fosse possível tocar e acariciar a pessoa amada, ausente.

      Pois o mesmo mecanismo acontece na educação. Quando se admira um mestre, o coração dá ordens à inteligência para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que ele sabe passa a ser uma forma de estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro. Sabendo o que ele sabe eu carrego a sua pasta, como o "mata-fome", faço amor com ele.

      Lamento dizer isso: tive poucos mestres que admirasse. Lembro-me de um que admiro até hoje, embora já se tenham passado mais de 50 anos: Leônidas Sobrinho Porto. Professor de literatura, nunca nos atormentou com informações sobre nomes e escolas literárias. Ele sabia que não aprenderíamos. Mas quando ele se punha a falar, era como se estivesse possuído. Falava com tal paixão sobre as grandes obras literárias que era impossível não ser contagiado. Eu o admirava porque nele brilhava a beleza da literatura, "queijo" de que eu não gostava. Ele me fez amar a literatura.

      A dona Clotilde nos dá a lição de pedagogia: quem deseja o seio, mas não pode prová-lo, realiza o seu amor poeticamente, por metonímia: carrega a pasta e come "mata-fome"...


posted by Paula Casellato Carnasciali at 8:00 PM



wSexta-feira, Março 16, 2007


O SOPRO ETÉREO DE UM ENCONTRO

Numa espécie de aeroporto cheio de gente, o encontrei. Eu estava acompanhada de novos e antigos amigos, ele também. Os grupos se reconheceram e paramos para conversar. As palavras ditas eram supérfluas. Mas algo, uma energia qualquer do universo, perpassava nós dois. Ele estava sentado, usava uma camiseta vermelha. Tinha uma expressão marota no rosto, não necessariamente o sarcasmo dos dias de hoje, nem a malícia de antigamente; uns olhos cansados de procurar por algo que nunca estava lá. Meu coração descobriu vitalidade nova, mandava sangue mais para meus ouvidos que para qualquer outro lugar do corpo. Nos despedimos, os grupos se separaram. As previsíveis frases foram ditas à minha volta e, tenho certeza, à volta dele também. Mas nossos olhos, corações e mentes continuavam ligados.

Ao longe, por uma porta automática de vidro, ele me olhou. Mexeu os lábios e de longe me disse: "Me liga." Senti um aperto no peito e assenti. Segui com a galera até um ponto na distância, sentamos nuns bancos de espera. Os sons à minha volta estavam abafados. Tudo o que eu conseguia sentir eram aquelas palavras suspiradas nos pêlos do meu pescoço: "Me liga."

O tempo pareceu parar. Vi o rosto dele surgindo no meio da multidão, a cor vermelha. Tinha começado a garoar, mas parecia que os pingos não o podiam atingir. Ele parou na minha frente e uma 'aura' de gotas formou-se ao seu redor. O clima que emanava das pessoas que nos cercavam era negativo e de descrédito. Entre nós, só o olhar, magnetismo. Eu tinha que me levantar e ir até ele. Primeiro as mãos, quentes. Depois, uma dança. Quase uma ciranda. Começamos a girar lentamente, me sentia leve, eu era uma bailarina. As coisas entre nós nunca tinham sido delicadas... até agora.Ele enlaçou minha cintura, eu passei as mãos em seus cabelos. Joguei meu corpo para trás e ele me girava. A chuva não nos molhava. O mundo era só nós dois. E nós ríamos. Sem gargalhadas, apenas a compreensão fundamental de estarmos exatamente aonde deveríamos estar. A hora finalmente tinha chegado.

O giro encontrou seu final com o emparelhar de nossos olhos. Ele me segurou forte e nos beijamos.


posted by Paula Casellato Carnasciali at 5:00 PM



wSábado, Abril 22, 2006


Eu não queria perder essa, então coloco aqui:



posted by Paula Casellato Carnasciali at 2:40 PM




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